domingo, abril 22, 2007

Cenas do quotidiano III

O olhar dizia-lhe “adeus” mas as lágrimas teimavam em não sair. Era com o olhar que os sentimentos se revelavam, apenas através dele se expressavam. Certamente que as palavras eram demasiado fracas e exíguas para definir aquele momento.
Era um olhar sereno mas também tristemente calmo, parecia querer dizer “sê feliz” e ao mesmo tempo quase que gritava “não vás”. Cobardia ou não, o olhar apenas se despedia, sem ousar lutar pela não partida. Estaria a assumir uma derrota ou apenas a compreender o motivo daquele momento?
Aquele olhar estava inquieto mas ao mesmo tempo estranhamente mostrava imensa ternura enquanto fugia ao prolongar daquela despedida. Era mais um sinal do desconforto que envolvia aquele momento.
O olhar desviou-se e seguiu o seu caminho. Seria fácil apostar que era agora um olhar cego pelos pensamentos, até porque hesitou duas ou três vezes quando se voltou para trás por meros segundos. Decidido mas não convencido, talvez um pouco conformado.
E seguiu o seu caminho em busca de novos olhares.

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sexta-feira, março 23, 2007

Cenas do quotidiano II

Sentado naquele banco em frente ao mar, escrevia com nervosismo no caderno que tinha no colo. Era perceptível como tinha pressa em passar as ideias para o papel e a frequência com que riscava o que tinha escrito mostrava como elas necessitavam ainda de consolidação.
A inquietação era evidente em cada um dos seus gestos e apenas era interrompida pelos curtos momentos de pausa em que ficava imóvel a olhar o mar. Certamente que procurava nele respostas para as suas dúvidas ou então buscava apenas um pouco de inspiração. Logo a seguir retomava a escrita de uma forma desassossegada mas ao mesmo tempo bastante enérgica.
Finalmente parou, olhou para as últimas letras escritas, fechou o caderno, guardou a caneta no bolso, contemplou o mar mais uma vez, levantou-se calmamente e começou a caminhar serenamente para outras paragens.
A urgência das palavras escritas permitiu-lhe assim retomar a calma do viver.

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domingo, março 04, 2007

Cenas do quotidiano I

Sentados à mesa do café conversavam tão concentrados que tudo à volta lhes passava ao lado. Nem o copo caído ao chão na mesa ao lado os interrompeu. Os corpos aproximavam-se um do outro sem se tocarem, enquanto mantinham os olhos presos um no outro.
De repente, ele sussurrou-lhe qualquer coisa ao ouvido. Foi certamente uma qualquer provocação em jeito de desafio, porque o ar de encantamento que ela tinha transformou-se num provocante olhar de desejo.
Levantaram-se e saíram. Provavelmente rumo às suas fantasias.

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